Perpetuando preconceitos em Príncipe Dragão


A segunda temporada de Dragon Prince já vai estrear semana que vem, dia 15, o que eu acho meio cedo, visto que a última temporada foi em setembro... Eu espero que tenha uma outra temporada ainda esse ano, porque se não vai ficar uma distribuição meio estranha. Mas enfim, com essa nova temporada, consequentemente fui relembrar a temporada anterior e me deparei com como a série fala sobre preconceito e intolerância.

Assim, a história de Dragon Prince é construída a partir de um preconceito dos elfos contra os humanos. Quando, por causa de um único individuo, os elfos assumiram que toda a espécie humana era daquela mesma forma. Afinal se um humano usou magia sombria, provavelmente os outros iram usar também.

Então, os humanos são injustamente expulsos do seu antigo território, um ato intolerante dos elfos, provavelmente gerado pela raiva e que causou uma guerra entre as duas espécies. Sendo a guerra a forma mais eficaz de se perpetuar estereótipos, principalmente entre os jovens que não começaram esse conflito ou sequer entraram nele. Porque quando alguém volta de uma guerra, ele não vai contar coisas boas sobre o seu inimigo, e essas histórias alimentam o imaginário popular e criam um conceito que não necessariamente é verdadeiro.

Ou seja, a história da série nem começou de fato e até aí já vimos que para dois grupos se odiarem é preciso só um indivíduo mal-intencionado e várias pessoas raivosas.

O que eu quero falar nesse vídeo é sobre uma cena que me chamou a atenção já na primeira vez que vi. Quando Sokka, Katara e Aang, quero dizer... Quando Callum, Ezran e Rayla chegam na cabana de inverno eles encontram a sua tia Toph, Amaya eu quis dizer Amaya.


Amaya é a líder na fronteira entre elfos e humanos, ou seja, diariamente ela deve encontrar elfos que querem matá-la, ela já deve ter perdido muitos companheiros para os elfos e, claro, ela foi ensinada a matar o inimigo. Na verdade, ela só vai até a cabana pois ficou sabendo que elfos lunares estão ameaçando a vida de seus sobrinhos. Então, quando ela encontra Rayla, sozinha, não havia outra reação se não ataca-la e prende-la. Não iria condizer com a construção da personagem ela tentar dialogar com a Rayla antes de prende-la. Amaya chega ao local com a verdade de que elfos são ruins.

No meio dessa confusão, Callum e Ezran discutem se eles contam a verdade ou não para tia deles, onde o sensato Ezran acha necessário, enquanto Callum insiste que ela não irá entender. Ezran ainda é uma criança, ele ainda não teve tanto tempo para alimentar o preconceito contra os elfos, enquanto Callum provavelmente já deve ter ouvido muito mais coisas sobre os elfos do que ele, e ter até mais preconceitos do que ele.

(Na verdade, a gente não sabe se quem matou a mãe dos dois, a irmã da Amaya, foi um elfo, essa pode ser uma informação que o Callum possui e o Ezran não. Sendo um dos motivos para que o Callum insistisse que a tia deles não entenderia que uma elfa do bem existe.)

A confusão, então, eclodiu em um beco sem saída para os três protagonistas, onde novamente o Ezran pede para eles falarem a verdade, mas Callum prefere utilizar a ideia mais estúpida de todas. Ele tenta intimidar a tia deles, uma pessoa qual provavelmente já matou vários elfos na sua vida, dizendo que a Rayla é um monstro que irá beber o sangue deles.

Obviamente essa ideia não dá certo, e a Amaya ataca Rayla para evitar com o que o Callum disse aconteça. Visto a situação Rayla se vê em uma única alternativa, deixá-los bem próximos a ela para que eles não se separem e ela não seja atingida. Afinal, mesmo se eles tentassem falar a verdade, agora sim haveria grande chance de a Amaya não acreditar e achar que é tudo um truque da Rayla.

Conseguindo fugir e Amaya ainda acreditando piamente na malevolência de Rayla, ela manda um espião atrás deles, um espião preparado para enfrentar a elfa.


Do outro lado, quando eles fogem, Rayla se mostra bem chateada com o que o Callum disse. Callum se desculpa e fala que não acredita em nada daquilo que ele disse.

Vamos lá. Callum disse que a Rayla era um monstro sanguinário, algo que ele deve ter ouvido sobre elfos em algum momento. Quando ele se desculpa ele não fala que ele sabe que a Rayla não é assim, ele fala que não acredita naquela frase que ele ouviu sobre os elfos.

Toda essa situação da mentira do Callum me faz associa-la com as piadas, ou com qualquer outro tipo de discurso, "politicamente incorretas", onde a pessoa que está falando não tem a intenção de ofender e não acredita "verdadeiramente" naquilo que está falando. Estereótipos se perpetuam através de mentiras, sejam elas mascaradas como entretenimento ou não, que é o caso do Callum.

Quando ele fala que ela é um monstro, só ele sabe que ele está mentindo, a Rayla deduz que é mentira, mas até ela acredita em certa medida, sendo por isso que ela fica magoado. Enquanto do outro lado, a tia deles e os soldados não fazem ideia de que é uma mentira e perpetuam aquilo.

Trazendo para o mundo real, quando um comediante diz, por exemplo, "que mulher é burra”, mesmo que ele fale que é uma mentira, uma piada, não deixa de ser ofensivo para mulheres e não deixa de reafirma e perpetuar uma mentira para quem já acredita nela. Um situação que é respectivamente a situação da Rayla e da Amaya.

Eu estou falando dos comediantes porque achei que é a forma mais fácil de exemplificar, mas isso também acontece nas séries e filmes, afinal séries e filmes são invenções criados por alguém. E quando só se cria um único tipo de personagem várias e várias vezes, as pessoas acabam pegando essa mentira como verdade. A diferença é que nas séries e filmes essas mentiras são absorvidas de forma inconsciente e por isso mais difíceis de se detectar.

Para mim essa sequência de cenas em Príncipe Dragão foi para mostra ao espectador que suas palavras têm consequências, independente da sua intenção, afinal a consequência direta do discurso do Callum foi a tentativa de homicídio e depois ferindo os sentimentos da Rayla.

Assim, eu não to aqui para falar sobre o limite do humor ou dizer como as coisas devem ser feitas, mas para tentar fazer pensar nas mentiras que contamos e vemos. Fazer pensar nas histórias que passamos adiantes e recebemos. Principalmente pensar no outro e em como essas histórias podem atingir o outro, seja magoando ou enraivecendo.


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