A Ganha-Pão [Review]

Claro que quem ganhou o Oscar 2018 de animação foi o filme sobre um menino malcriado e não a menina que luta pela família.


Indicado ao Oscar de 2018 de melhor longa de animação, A Ganha-Pão (em inglês The Breadwinner) estrou nos EUA em novembro de 2017. Dirigida por Nora Twomey o filme foi produzido em três país (Canadá, Irlanda e Luxemburgo), contou com quatro produtores (Anthony Leo, Tomm Moore, Andrew Rosen e Paul Young) e foi escrito por Anita Doron e Deborah Ellis. A sua estreia legal no Brasil se deu pela plataforma Netflix em primeiro de junho de 2018.

A história se passa, aparentemente, no atual Afeganistão, onde o grupo Talibam tomou o poder e implementou leis desumanas contra as mulheres, como a proibição delas de saírem de casa, ou comprar qualquer coisa, sem um parente masculino. O enredo segue a vida de Parvana, que após seu pai, único membro homem habito a sair de casa, ter sido preso, teve que se disfarça de menino para conseguir comprar comida para sua mãe, irmã e irmão bebê. Entrelaçado a trama principal também há um conto, uma história, sendo narrada por Parvana para seu irmãozinho mais novo, onde no final se liga a história principal.

Definitivamente não é uma animação infantil, apesar deles optarem por uma animação que tornasse o filme menos pesado. O que eu acredito ter sido uma boa escolha para que mais pessoas assistissem, porque se eles optassem por um formato e uma narrativa mais crua e cruel, como eu acho que deva ser mais comum nesses países, provavelmente haveria uma repulsa pela brutalidade.

O próprio conto que a Parvana narrar, que é ilustrada com uma animação diferente, é uma forma de deixar o espectador respirar, porque é um filme bastante tenso. (Apesar de eu, Juliana, ter achado o conto uma enrolação, visto que eu queria saber o que iria acontecer na história principal, querendo que acabasse logo).


Construção dessa sociedade machista e misógina é colocado de forma que você vê, e não que a Parvana ou qualquer mulher reclame da sociedade, ou que pegue uma bandeira e exponha verbalmente esse problema. Até mesmo o estopim da história, que é a prisão do pai da protagonista, que foi causado por vingança, não se fala verbalmente da sociedade como um problema. (A Parvana só quer salvar o pai, mas não fala sobre a injustiça dela ter que virar um menino para sobreviver e fazer isso.) A única vez que se fala do problema é no começo, quando é narrado que antes do Taliban atacar eles viviam em paz e livres.

Eu considero que essa falta de verbalização do problema é uma forma de fazer com que o espectador raciocinar sobre o que viu e por consequência fixar mais na memória. Aquele velho ditado: “Uma foto vale mais que mil palavras”. Além de retratar uma família que só quer sobreviver e não lutar.

No quesito de produção, como eu disse, o traço, apesar de bem próprio, é também um pouco cartonesco para suavizar essa universo e história pesados. A animação tem bastante fluidez e um ótimo desenho de luz. A falta de músicas é bem condizente com a construção da atmosfera do filme e a dublagem, apesar de em inglês, têm o sotaque da língua árabe que também favorece essa ambientação.

Se você for assistir A Ganha-Pão, eu recomendo ter um segundo filme/série mais leve para assistir depois, porque é uma animação que vai te deixar desconfortável. Ele ainda está disponível na Netflix, então, fica a recomendação.


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